segunda-feira, 2 de abril de 2012

CLÁSSICOS DO CORDEL


Lucilane e Carmelita
A VIDA DE UM VAQUEIRO VALENTE
OU A VAQUEJADA NO CÉU
Autor: Lucas Evangelista




Sou um poeta que vive
  da poesia somente 
porém gosto d'uma história 
versada em alta patente
  que se vê moça bonita
  casar com rapaz valente.
Para quem gosta de luta
  de ver a palha voar
  penetre neste meu livro
  que daqui pra terminar
  se sabe como um rapaz
  tem estética pra brigar.
 
  Dando volta na memória
  vou traçar em poesia
  um romance destacado
  que todo mundo aprecia
  a história de um vaqueiro
  que passou-se na Bahia.
Chamava-se Lucilane
  o leitor bem compreenda
  pois ele desde menino
  já nasceu de encomenda
  pra montar cavalo brabo
  e trabalhar em fazenda.
Logo desde criancinha
  Seu pai lhe deu a um senhor
  A um cidadão ricaço
  Por nome João Salvador
  Tinha diversas fazendas
  Era grande agricultor.
Em cada fazenda ele
  Apoiava cangaceiro
  Apreciava na vida
  Moça bonita e dinheiro
  Cavalo de campear
  Homem valente e vaqueiro.

Quando o pai de Lucilane
  Foi o menino entregar
  Disse: - Seu João, cuidado
  Pois eu vou lhe avisar
  Que meu filho é impossível
  De ninguém lhe aguentar.
 
O velho disse: - O garoto
  Tem traços de valentão
  Vou criá-lo com cuidado
  Quando ficar rapagão
  Quero ver se ele presta
  Para pegar barbatão.
E começou o menino
  No traquejo muito cedo
  Tinha muito amor a gado
  Campeando no degredo
  Nunca temia a visão
  Nem de nada tinha medo.
Ele só tinha um defeito
  Nunca gostou de amigo
  Menino nas unhas dele
  Corria grande perigo
  Dava num, batia noutro,
  Que parecia um castigo.

O Major tinha uma filha
  por nome de Carmelita
  Contava dezesseis anos
  era uma moça bonita
  além de ser filha única
  era fidalga e bendita.

Vou comparar pelo mínimo
  Sua beleza em meu tema
  Embora que seja fraco
  Para expressá-la em poema
  Pois era muito mais linda
  Que as atrizes do cinema.
Os olhos acastanhados
  E as faces cor de rosa
  Entre as moças camponesas
  Ela era a mais formosa
  Mesmo sem usar perfume
  Carmelita era cheirosa.
Tinha o coração fechado
  Pois nunca amara a ninguém
  Mas quando viu Lucilane
  Começou lhe querer bem
  E o menino gostava
  De Carmelita também.
(...)

Trabalho com a venda de cordéis há quase 15 anos. Em todos os lugares por onde tenho passado ouço as pessoas comentarem a respeito desse poema de Lucas Evangelista. Na década de 70, muitas crianças foram batizadas com o nome de Lucilane em homenagem ao personagem central desse romance. O autor vendeu os direitos autorais ao editor Benedito Antonio de Matos, que imagino já ser falecido. Por isso o romance não vem sendo reeditado há pelo menos 30 anos. Trata-se, sem dúvidas, de um clássico da Literatura de Cordel.